quinta-feira, 28 de maio de 2015

Um gole e um conto

Era tarde e o dia estava em seu crepúsculo, o tilintar do martelo do ferreiro já não se ouvia mais e as charretes dos mercantes pouco movimentavam as ruas naquela hora. O som que ainda se ouvia, e que não fazia muito tempo que havia começado, eram as cantorias desgarradas e roucas da taverna O dragão sonolento. Aquela seria uma noite especial, na cidade havia chegado um trovador peregrino para alegrar aqueles ébrios homens, afastar o clima pesado que as guerras trouxeram e, é claro, ganhar algumas moedas pela atividade.
A noite já ia tarde quando o grande sino da torre sentinela soou alto e apressado 3 vezes anunciando que algo estranho estava acontecendo, algo perturbador e muito sério para esse evento vir a ocorrer. Dentro de alguns instantes todos na cidade já haviam escutado o soar do sino, outros já sabiam o motivo de tal alerde, – Dragão! – era a única palavra entoada, com desespero, que se ouvia. Os camponeses corriam para todos os lados, estes foram os que sofreram a primeira investida do lagarto cuspidor de fogo. Alguns já iluminavam a noite com seus corpos, suas plantações mais pareciam alamedas flamejantes e suas casas eram alvos dos gofos ardentes da fera alada.
O desespero deu o lugar ao horror comunitário, nem mesmo os guardas possuíam coragem para enfrentar algo tão veloz e voraz. Porém, da fumaça e dos gritos surgiu a figura de um guerreiro que, com sua espada empunhada na mão direita, o escudo na mão esquerda e uma armadura grosseira de ferro, este demonstrava uma feição serena e nada mais. Este se pôs no fronte da fera pousada, ela rugiu, mas o único movimento de regresso que se via nesse cenário era o flamular das peles de sua vestimenta inferior. Ela rugiu mais uma vez e novamente o guerreiro não temeu, porém dessa vez, do rugido sucedeu uma luz escarlate que vivia e vinha ardendo na goela da criatura. O guerreiro apertou os punhos, correu e...
 – E o que? O que aconteceu com o guerreiro? – perguntou a criança.
 – Pequeno, você ainda vê algum dragão por ai? – respondeu o guerreiro. 

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