Era tarde e o dia estava em seu
crepúsculo, o tilintar do martelo do ferreiro já não se ouvia mais e as
charretes dos mercantes pouco movimentavam as ruas naquela hora. O som que
ainda se ouvia, e que não fazia muito tempo que havia começado, eram as cantorias
desgarradas e roucas da taverna O dragão sonolento. Aquela seria uma noite especial,
na cidade havia chegado um trovador peregrino para alegrar aqueles ébrios
homens, afastar o clima pesado que as guerras trouxeram e, é claro, ganhar
algumas moedas pela atividade.
A noite já ia tarde quando o grande sino da torre sentinela soou alto e
apressado 3 vezes anunciando que algo estranho estava acontecendo, algo
perturbador e muito sério para esse evento vir a ocorrer. Dentro de alguns
instantes todos na cidade já haviam escutado o soar do sino, outros já sabiam o
motivo de tal alerde, – Dragão! – era a única palavra entoada, com desespero,
que se ouvia. Os camponeses corriam para todos os lados, estes foram os que
sofreram a primeira investida do lagarto cuspidor de fogo. Alguns já iluminavam
a noite com seus corpos, suas plantações mais pareciam alamedas flamejantes e
suas casas eram alvos dos gofos ardentes da fera alada.
O desespero deu o lugar ao horror comunitário, nem mesmo os guardas
possuíam coragem para enfrentar algo tão veloz e voraz. Porém, da fumaça e dos
gritos surgiu a figura de um guerreiro que, com sua espada empunhada na mão
direita, o escudo na mão esquerda e uma armadura grosseira de ferro, este
demonstrava uma feição serena e nada mais. Este se pôs no fronte da fera
pousada, ela rugiu, mas o único movimento de regresso que se via nesse cenário
era o flamular das peles de sua vestimenta inferior. Ela rugiu mais uma vez e
novamente o guerreiro não temeu, porém dessa vez, do rugido sucedeu uma luz
escarlate que vivia e vinha ardendo na goela da criatura. O guerreiro apertou os punhos,
correu e...
– E o que? O que aconteceu com o
guerreiro? – perguntou a criança.
– Pequeno, você ainda vê algum
dragão por ai? – respondeu o guerreiro.